Sangue nas fezes

Ir ao banheiro e notar a presença de sangue nas fezes pode ser um sinal de alerta e despertar muitas dúvidas sobre o que pode ser. O sintoma aparece em diferentes situações, como hemorroidas, fissuras, infecções e até com o uso de medicamentos1.

Para ilustrar a relevância do tema, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a prevalência da doença hemorroidária chega a 50% das pessoas a partir dos 50 anos. No Brasil, cerca de 25 mil pacientes passam por cirurgia no SUS em decorrência do problema8.

Diante desse cenário, é essencial compreender que as características do cocô refletem a saúde intestinal. Observar aspectos como cor, consistência e formato auxilia no diagnóstico precoce de problemas1.

Agora, você deve estar se perguntando: como identificar sangue nas fezes sem dor? A seguir, explicaremos as causas mais comuns, sinais que sugerem alterações intestinais, medidas recomendadas e situações que exigem atenção imediata.

Resumo

  • As causas de sangue nas fezes incluem hemorroida, fissura anal, doença inflamatória intestinal, diverticulite, úlcera péptica, pólipos, câncer colorretal, colite isquêmica e endometriose¹.
  • O sintoma exige atenção médica quando aparece com dor abdominal, ocorre perda sanguínea intensa, surgem coágulos no bolo fecal, há perda de peso rápida¹.
  • Para identificar a alteração, observe a coloração das fezes ou realize exames laboratoriais capazes de detectar sangue oculto nas fezes2,3.
  • Busque avaliação profissional, pois, conforme a gravidade do quadro, o tratamento pode ser mais complexo e demandar cuidados específicos3.

Boa leitura!

Sangue nas fezes: o que pode ser?

A presença de sangue no cocô pode surgir por fissura anal, hemorroida ou indicar condições que exigem atenção, como doença inflamatória intestinal (DII) ou câncer retal. O sintoma foge do padrão saudável e causa preocupação, sobretudo quando ocorre de maneira recorrente ou sem motivo aparente1.

Além disso, a ocorrência pode representar sangramento em um segmento específico do trato gastrointestinal3:

  • trato superior: origem no esôfago ou estômago;
  • trato inferior: origem no intestino delgado, intestino grosso, reto ou ânus.

Para explicar o que pode ser sangue nas fezes, o primeiro passo é avaliar sintomas associados que surgem junto do quadro. No tópico seguinte, listamos os indícios clínicos mais comuns.

Quais sintomas aparecem junto do sangue no cocô?

Os sintomas específicos que podem aparecer com sangue nas fezes incluem9:

  • alterações nos hábitos intestinais por mais de quatro semanas;
  • coceira anal;
  • constipação;
  • desconforto abdominal contínuo, como cólicas, gases ou dor;
  • diarreia;
  • dor retal;
  • evacuação dolorosa;
  • fadiga ou fraqueza;
  • febre;
  • fezes estreitas;
  • náuseas ou vômitos;
  • necessidade frequente de evacuar;
  • perda de peso não intencional.

Ao perceber sangramento no vaso sanitário, no papel higiênico ou sobre o bolo fecal, observe as reações do corpo para identificar sinais adicionais nos dias seguintes9.

Se os desconfortos persistirem ou se intensificarem, procure atendimento médico para realizar exames e obter o diagnóstico preciso. A maioria das doenças intestinais tem tratamento eficaz9.

Infelizmente, o constrangimento e o receio de exames diagnósticos ainda são barreiras para adiar a ida ao médico. Porém, os procedimentos têm segurança comprovada e permitem identificar a alteração em fase inicial, o que amplia a eficácia de tratamentos menos invasivos10.

Leia também: Preparo para exame de colonoscopia: o que fazer para preparar o intestino?

Por que sangue nas fezes e dor abdominal são preocupantes?

A presença de sangue no cocô associada à dor abdominal acende o alerta, pois a combinação costuma indicar condições que exigem avaliação, como doença de Crohn ou colite ulcerativa. Esses quadros causam grande incômodo, interferem na rotina e necessitam de acompanhamento médico para manter os sintomas sob controle3.

Além disso, alterações intestinais e perda de peso aumentam a preocupação1.

Diante dos primeiros sinais, a orientação médica é indispensável para identificar a causa e iniciar o tratamento adequado.

Quais problemas/doenças podem causar a presença de sangue no cocô?

Diversas condições gastrointestinais podem provocar essa alteração, como hemorroida, fissura anal, doença inflamatória intestinal, diverticulite, úlcera péptica, pólipos, câncer colorretal e colite isquêmica. Esses quadros exigem terapias específicas e acompanhamento médico contínuo, pois apresentam evolução variável e demandam controle adequado dos sintomas. Por isso, nunca ignore o sintoma1.

Vale ressaltar que nem todos os episódios indicam gravidade, mas o tratamento correto é fundamental¹. Além disso, fatores emocionais, como ansiedade e estresse, podem desencadear sangue nas fezes sem dor, já que interferem no funcionamento intestinal7.

Veja, a seguir, as causas mais frequentes e as manifestações clínicas de cada quadro.

1. Hemorroida

As hemorroidas são veias presentes no reto e ao redor do ânus que dilatam quando sofrem uma pressão intensa. Além do sangramento, o quadro causa dor4.

Geralmente, o trauma na região ocorre em casos de constipação intestinal ou devido ao excesso de força ao evacuar4.

O tratamento consiste na adoção de uma alimentação com mais fibras, que auxiliam no trânsito intestinal, o uso de analgésicos tópicos (quando receitados pelo médico) e banhos de assento1.

Leia mais: O que causa hemorroida e como evitar a condição?

2. Fissura anal

A fissura anal é um corte no revestimento do ânus provocado por um trauma, como a saída de fezes duras e ressecadas. Os sintomas desse tipo de ferimento incluem1:

  • dor durante ou após a evacuação;
  • cagar sangue;
  • coceira na região anal.

Os principais cuidados para recuperar a fissura são semelhantes aos do quadro de hemorroida, como banho de assento e adoção de uma dieta rica em fibras1.

3. Doença inflamatória intestinal

Existem dois tipos de doenças inflamatórias intestinais: a doença de Crohn, que afeta o intestino delgado, mas pode afetar outras partes do trato gastrointestinal, e a colite ulcerativa, que afeta o intestino grosso5.

São doenças diferentes que têm alguns sintomas parecidos, como cagar sangue e a diarreia5.

Como a doença de Crohn não tem cura, o tratamento consiste no controle e na redução dos sintomas. A colite ulcerativa é tratada com medicamentos e, em alguns casos, com cirurgia5.

4. Diverticulite

A diverticulite surge na porção inferior do cólon, próxima ao reto. Os divertículos, pequenas bolsas presentes no revestimento intestinal, podem inflamar e infeccionar, o que fragiliza os vasos internos e aumenta a chance de ruptura6.

Quando essa reação ocorre, pode gerar sangue nas fezes ou sangramento retal intenso. O quadro ainda apresenta dor abdominal contínua e forte, inchaço, constipação e febre6.

5. Úlcera péptica

As úlceras pépticas afetam o estômago ou o duodeno. Os “machucados” surgem pela ação do suco gástrico, que danifica a mucosa protetora e forma feridas abertas11.

Além de dor forte no estômago, a úlcera provoca queimação e pode sangrar. Quando o sintoma ocorre, costuma apresentar cor escura ou preta devido ao tempo para percorrer o trato digestivo11.

6. Pólipos e câncer colorretal

Os pólipos aparecem na parede intestinal e têm aspecto semelhante ao de um cogumelo. Como são estruturas frágeis, o risco de sangramento aumenta conforme crescem12.

O principal perigo está na possível transformação maligna, já que os pólipos resultam de crescimento celular desordenado12.

Quando surge o sangue inesperadamente, sem alterações adicionais, os médicos recomendam colonoscopia para descartar a possibilidade de câncer de cólon12.

7. Colite isquêmica

Quando ocorre uma lesão no intestino grosso, o fluxo sanguíneo do cólon pode diminuir ou parar. Esse bloqueio costuma se desenvolver de forma gradual, como no acúmulo de colesterol nas artérias13.

Outra possibilidade é o surgimento súbito, causado por coágulo sanguíneo ou por queda acentuada da pressão arterial13.

A colite isquêmica pode gerar diarreia com sangue, acompanhada de dor abdominal que piora após as refeições13.

Após conhecer as principais causas clínicas, vale destacar que há determinados medicamentos que podem causar sangue nas fezes. Confira quais apresentam esse efeito.

8. Endometriose

A endometriose é uma condição em que o tecido endometrial, normalmente presente no interior do útero, cresce fora dele e pode atingir outros órgãos, como as paredes do intestino, situação conhecida como endometriose intestinal16.

Quando a menstruação ocorre, essas aderências, geralmente localizadas no reto e no cólon, também sangram, o que pode resultar na presença de sangue nas fezes16.

Assim, é fundamental acompanhar o comportamento intestinal ao longo do ciclo menstrual e observar sintomas associados, a fim de investigar o quadro de forma adequada16.

Existem medicamentos que podem causar sangue nas fezes?

Sim, o sangramento no cocô pode ocorrer devido à laceração anal provocada por esforço evacuatório ou por fezes endurecidas, situação agravada por diversas classes de remédios. Alguns fármacos alteram o ritmo intestinal, favorecem ressecamento e elevam o risco de microlesões, que levam ao aparecimento do sintoma15.

As categorias de medicamentos que podem causar sangue nas fezes incluem15:

  • analgésicos opioides;
  • anticolinérgicos;
  • antidepressivos tricíclicos;
  • antiespasmódicos;
  • anti-histamínicos;
  • anti-inflamatórios não esteroides (AINEs).
  • antipsicóticos;
  • suplementos de cálcio e ferro, incluindo antiácidos que contêm cálcio.

Alguns medicamentos que aumentam o risco de sangramento, como anticoagulantes, corticosteroides e inibidores de plaquetas, também podem intensificar o quadro15.

Se houver úlcera ou outra alteração digestiva, o uso de substâncias que aumentam a perda sanguínea agrava o sintoma. Por esse motivo, seguir as doses e orientações médicas é essencial para evitar efeitos colaterais relevantes15.

Como identificar sangue nas fezes?

A identificação da presença de sangue no cocô depende principalmente da observação da cor. Cada tonalidade sugere uma origem específica no trato gastrointestinal e orienta a avaliação clínica e a necessidade de exames complementares. As variações de cor incluem2,3:

  • vermelho vivo (hematoquezia): indica sangramento na porção inferior do cólon, reto ou ânus;
  • vermelho-escuro ou marrom: pode sugerir sangramento na parte superior do cólon ou no intestino delgado;
  • preto (melena): costuma indicar sangramento no estômago.

Embora seja mais comum no trato gastrointestinal inferior, o vermelho vivo também pode refletir sangramento intenso no esôfago ou estômago3.

Além disso, nem sempre o sangue no cocô aparece de forma visível. Nesses casos, a evidência só pode ser detectada por microscópio2.

Por esse motivo, os médicos solicitam o teste de sangue oculto nas fezes, realizado a partir de uma amostra do material2.

Para algumas pessoas, o tema causa constrangimento, mas as características do cocô revelam informações importantes sobre a saúde intestinal2.

Agora que você sabe como identificar sangue nas fezes, entenda as características do sangue oculto e quando acontece.

O que é sangue oculto nas fezes?

É a eliminação de pequenas porções de sangue misturadas às vezes, invisíveis a olho nu. A detecção exige exame laboratorial específico solicitado para esclarecer alterações intestinais e afastar condições relevantes, como câncer colorretal, sobretudo quando surgem sinais persistentes que demandam avaliação clínica mais detalhada do quadro14.

Porém, nem sempre a presença de sangue oculto nas fezes indica problema grave. O intestino pode apresentar microlesões decorrentes de fissuras ou inflamações, quadros tratados de forma menos invasiva14.

Dessa forma, identificar esse sinal discreto favorece o diagnóstico preciso, eleva as chances de sucesso terapêutico e oferece maior tranquilidade ao paciente14.

Como obter o diagnóstico correto?

A confirmação do sangue no cocô depende de avaliação clínica detalhada e de exames que investigam o trato gastrointestinal em diferentes segmentos. Toque retal, métodos de imagem e testes laboratoriais permitem identificar sangramento visível ou oculto, especialmente quando há alterações persistentes que exigem esclarecimento adicional3.

Os exames mais utilizados incluem3:

  • anuscopia: visualização do canal anal com pequeno endoscópio dotado de lente de aumento;
  • colonoscopia: avaliação completa do intestino grosso com colonoscópio equipado com câmera;
  • cultura retal: coleta de material para identificar infecções bacterianas;
  • endoscopia digestiva alta: exame que investiga sangramento no trato gastrointestinal superior por meio de endoscópio introduzido pela garganta.
  • exame de fezes: análise da amostra para verificar sangramento ativo, sangue oculto ou sinais de inflamação;
  • exame retal digital (ERD): avaliação física do reto e do ânus realizada por um médico;
  • proctoscopia: exame do reto e ânus com endoscópio curto e rígido;
  • sigmoidoscopia flexível: visualização do cólon inferior com endoscópio longo; 

Com os resultados, o médico define o diagnóstico com precisão e indica o tratamento seguro, o que melhora a qualidade de vida e previne complicações futuras3.

Leia também: Laxante para colonoscopia: conheça o preparo do exame!

Quando o sangue nas fezes é preocupante?

Quando o sangramento aparecer sem motivo, é muito importante se atentar à frequência do sintoma e procurar atendimento médico se observar1:

  • saída de sangue intensa e volumosa;
  • coágulo de sangue;
  • presença de outros sintomas, como perda de peso rápida;
  • dor intensa na parte inferior ou superior do abdômen;
  • duração dos sintomas de uma semana ou mais.

Leia também: Sistema digestório: guia completo para sua saúde digestiva

Cuide da saúde intestinal

Com várias funções importantes, como a absorção de nutrientes essenciais para o funcionamento do organismo, é fundamental ter um intestino saudável, prevenindo o surgimento de problemas e doenças que prejudiquem a saúde3.

Alguns hábitos que contribuem para manter a saúde intestinal incluem3:

  • ter uma alimentação saudável e rica em fibras;
  • ingerir bastante água;
  • praticar regularmente algum tipo de atividade física.

Esperamos que esse conteúdo tenha sido útil para entender o que pode ser sangue nas fezes. Não se esqueça de que nada substitui a avaliação profissional, portanto, não deixe de marcar uma consulta.

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Sobre o autor

Dr. Márcio de Queiroz Elias

Trabalha na indústria Farmacêutica desde os anos 2000, vindo a atuar nas áreas de Saúde Feminina, Consumer Health, Clínica Geral, Pediatria, Dor e Inflamação, Reumatologia, Similares e genéricos.

Conheça o autor

1. Sabry AO, Sood T. Rectal Bleeding [Internet]. Nih.gov. StatPearls Publishing; 2021. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK563143/. Acesso em abril/2023.


2. DiGregorio AM, Alvey H. Gastrointestinal Bleeding [Internet]. Nih.gov. StatPearls Publishing; 2019. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK537291/. Acesso em abril/2023.


3. Kim BSM. Diagnosis of gastrointestinal bleeding: A practical guide for clinicians. World Journal of Gastrointestinal Pathophysiology [Internet]. 2014;5(4):467. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4231512/. Acesso em abril/2023.


4. Ansari P. Hemorroidas [Internet]. Manual MSD Versão Saúde para a Família. Manuais MSD; 2021. Disponível em https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/disúrbios-digestivos/distúrbios-do-ânus-e-do-reto/hemorroidas. Acesso em abril/2023.


5. Walfish AE, Antonio R. Visão geral da doença inflamatória intestinal [Internet]. Manuais MSD edição para profissionais. Manuais MSD; 2022. Disponível em https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/distúrbios-gastrointestinais/doença-inflamatória-intestinal/visão-geral-da-doença-inflamatória-intestinal. Acesso em abril/2023.


6. NHS Choices. Diverticular disease and diverticulitis [Internet]. NHS. 2019. Disponível em https://www.nhs.uk/conditions/diverticular-disease-and-diverticulitis/. Acesso em abril/2023.


7. Pellissier S, Bonaz B. Chapter Eleven - The Place of Stress and Emotions in the Irritable Bowel Syndrome [Internet]. Litwack G, editor. Vol. 103, ScienceDirect. Academic Press; 2017. p. 327–54. Disponível em https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0083672916300474. Acesso em abril/2023.


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